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Pantanal

O Pantanal foi o primeiro destino de nossa lista de lugares para conhecer no Brasil. Não sei explicar exatamente o porquê dessa prioridade, mas acho que foi uma mistura inconsciente de shows do Almir Sater no Tuca Arena + novela Pantanal + imagens de onças, jacarés e muitos outros animais. Acho que também a ideia de que o Pantanal é um lugar único, um dos ecossistemas mais ricos do mundo. E tudo isso num lugar isolado, sem estradas, onde só é possível rodar em veículo 4x4 (na época da seca) ou de barco, isto é, um paraíso para aventureiros!

 

E o Pantanal realmente nos surpreendeu. Mais que isso: o Pantanal nos emocionou. A exuberância da natureza, a quantidade de animais que vivem soltos e não fogem do homem, a cultura dos pantaneiros. Descobri que não faz sentido falar em Pantanal porque há vários "Pantanais": são 11 "Pantanais" catalogados -  Abobral, Paiguás, Nhecolândia, Nabileque, Porto Murtinho, Barão de Melgaco, Paraguai, Taquari, Poconé, Cáceres, Aquidauana, Miranda - e cada lugar tem suas particularidades e seus rios (e os rios aqui são atores fundamentais). Comum a todos, no entanto, a seca ou a cheia - as duas estações que importam aqui.

Rodar pelo Pantanal é passar por diversas fazendas, abrindo incontáveis porteiras ( para cruzar a Nhecolândia, foram 84!) sem, contudo, avistar muita gente. Só se vê gente onde há gado, nas invernadas ou nas tropas e comitivas que cruzam essas terras levando milhares de bois de um lado a outro por caminhos que não podem ser acessados por caminhões.

O Pantaneiro

Para lidar com o vai e vem das águas, o pantaneiro forma as comitivas e transporta os animais ora para fugir das secas ora da cheia. Eles cruzam o Pantanal conduzindo os rebanhos pelos "corredores boiadeiros", estradas cercada exclusivas para a passagem dos bois e que garantem que os animais das comitivas não se misturem com o gado das fazendas.  Ao cruzar uma comitiva, vemos os peões, de chapéu, camisa ou abrigo de mangas longas, calças jeans surradas, algumas cobertas por "perneiras" de couro. Eles seguem montados em cavalos encilhados com selas decoradas e que carregam o berrante, a matula (lanche) e o tereré. Na frente da tropa, seguem o cozinheiro e os cavalos de reserva, que carregam a comida, as redes, as coisas de cozinha em baús de couro ornamentados. Ele segue bem na frente para chegar primeiro aos lugares de passar a noite e preparar o acampamento e a comida dos peões que ladeiam o gado e tocam o berrante. No cardápio, arroz carreteiro, macarrão tropeiro e carne.


Para passar de carro no meio da boiada, aprendemos que é preciso seguir quase colado no peão (que pode ser o ponteiro, fisdores, meeiros ou o chefe, que segue na "culatra", encerrando a tropa) pantaneiro que, com seu cavalo e comandos, libera a passagem.

 

Nossa aventura pelo Pantanal estava planejada em duas fases:

Fase 1: cruzar a Nhecolândia até o Rio Taquari.

Fase 2: do Taquari cruzar até o rio Piquiri e balsa para Porto Jofre, depois subir a Transpantaneira de Porto Jofre até Poconé.

Por vários motivos que explico a seguir, fizemos apenas Fase 1 e foi muito bom!

Geralmente, quem vai ao Pantanal faz dois caminhos: pelo sul, via Estrada Parque, esquerda na Curva do Leque e segue para Corumbá, ou pelo norte via Transpantaneira, trecho Poconé-Porto Jofre. Nesses roteiros, o caminho sempre é feito por estradas que percorrem apenas um pequeno trecho daquilo que é o Pantanal. A E3A tinha o sonho de cruzar TODO o Pantanal, inclusive os trechos que não eram cortados por estradas. Para isso, o Tico achou na internet um caminho de gps que tinha um roteiro por essas terras pouco exploradas (dias depois, em Coxim, conhecemos o moço que sabia desse caminho e que nos contou quem tinha desenhado o mapa o gps. Coincidências ... Se vc quiser esse track, ele está disponível no mapa do TrackSource).

Começamos nossa viagem pela Estrada Parque. Na época da seca, é possível circular com tranquilidade e observar diversos animais: jacarés, tuiuiús, quatis, diversas aves, capivaras... (durante a cheia, nós disseram que a estrada permanece transitável, mas em alguns trechos é obrigatório passar pelas pontes p, não sendo possível fazer a passagem pelas partes mais baixas, rentes ao solo).

Nossa hospedagem foi na Fazenda Xaraés, localizada a poucos quilômetros da famosa Curva do Leque. A Fazenda é um pouso muito gostoso: silenciosa, banhada pelo rio Abobral e cercada por lindas árvores e capões com bastante vida silvestre (capões são pedaços de terra localizados em áreas mais altas e que, portanto, não alagam nas cheias, funcionando como refúgio para os animais e para o gado).

Por lá, na agradável e amistosa companhia da Olívia, do João e do Rafa, tivemos nosso primeiro contato com a fauna espantosa do Pantanal: araras azuis, bugios, jacarés, veados, tatu, cobra, diversas espécies de aves, capivaras. Foi o Rafa quem nos disse que os jacarés eram calmos e que se afastam quando chegávamos perto. As fotos e o vídeo a seguir mostram que os jacarés não seguiram essa regra comigo:

Após dias de descanso e longas conversas sobre a viabilidade de nosso planos de travessia do Pantanal via Nhecolândia (agradecimentos ao Nilson, que percorre o Pantanal há anos com turistas, e à Olívia, que nos deu cópia de um excelente mapa -embora desatualizado- das fazendas e rios da região), percorremos o trecho até a Curva do Leque e lá seguimos nosso caminho pela direita, sentido rio Taquari. Aqui começou a melhor parte do Pantanal!

Foram doze horas de viagem, 84 porteiras e um pouco de chuva. A entrada no Pantanal já foi espetacular: nosso carro foi sobrevoado por casais de araras que, curiosas, nos seguiram por alguns instantes. No caminho, o Pantanal em todo seu esplendor: muitos veados, jacarés, capivaras, quatis, raposas, aves de todos os tipos, tamanduá-mirim...

As poucas pessoas que encontramos nos davam algumas indicações, mas é preciso estar atento: há muitos caminhos marcados no chão, corredores de bois, entradas de fazendas e muitas muitas porteiras. O GPS é fundamental!

Finalmente alcançamos a ponte do Rio Taquari (aqui, uma explicação: no meio do nada, em pleno pantanal inacessível, surge uma ponte de concreto que cruza o rio Taquari). Como já era tarde, decidimos parar para descansar. Por sorte, do outro lado da ponte há uma fazenda chamada Sagrado Coração, onde funciona uma pousada para pescadores. Como não era temporada de pesca, a pousada estava fechada, mas dona Inês, a proprietária, nos acolheu imediatamente e foi ali que passamos a noite.( e vejam as coincidências: no dia seguinte, já em Coxim, paramos para pedir informações em uma loja. O senhor nos olhou e perguntou: mas vcs não são os dois que estão fazendo uma viagem longa? - ele era o sr. João, marido da dona Inês!)

Ao acordar, decidimos ir para Coxim. O carro estava imundo, meu tênis coberto de lama e El Tanque precisava de uma lavagem.

Na cidade, Tico viu que havia um posto de gasolina no qual tinha posters na parede de jipeiros e motoqueiros e que, portanto, o proprietário provavelmente gostava de trilha. Paramos no Posto do Edson e aí aconteceram daquelas coisas que, por mais detalhista que seja esse texto, é impossível descrever.

Para começar, montamos uma espécie de "acampamento pós-desastre aéreo" no posto: desmontamos o carro inteiro e colocamos tudo na área de mesas da lanchonete. Minha mala de plástico e nylon tinha sido "comida" pelo diesel que vazou dos malditos galões flexíveis e tive que tirar e estender todas as minhas roupas por ali. Uma farofa! A situação era até engraçada: algumas pessoas paravam e perguntavam se estávamos vendendo as coisas!

E foi juntando gente. Descobrimos que o posto do Edson era mesmo um ponto de encontro de quem gosta de trilha e de 4x4. Conhecemos por lá um monte de gente interessante:

* Aristol (contato facebook: filhodoicojavali), que organiza trilhas por todo Pantanal, e que nos indicou dois jipeiros experientes na área de Pantanal, Chapada e Cuiabá (Gardenal e o Dênio). Foi ele quem nos contou que o track que seguimos no Pantanal foi feito pelo Joafran Bueno, seu amigo.

* Émerson, praticamente o "Bear" brasileiro: ele foi do Exército por muito tempo e trabalhou na fronteira com a Colômbia. Sua preparação incluiu todos aqueles cursos terríveis e dificílimos de sobrevivência na selva, feitos na Amazônia, nós quais os caras ficam 24 horas sem água, tendo que carregar toras pesadas, por exemplo. Ele nos deu muitas dicas bacanas de como transportar coisas sem molhar (salve os saquinhos de sacolé!), como fazer fogo quando tudo parece molhado, como suportar o desgaste físico e psicológico. Foi das pessoas mais legais e interessantes que conhecemos! Viramos seus fãs, Emerson! (Mas eu desisti completamente de fazer qualquer curso de sobrevivência depois de ouvir suas histórias)

* a "turma do Edson": composta por ele, sua esposa, Santiago e mais um amigo. São os gaúchos de Coxim, que nós receberam por lá como se já fossemos antigos amigos. Mesmo cansados e sujos, resistimos e ficamos até bem tarde batendo papo com aquelas figuras que nós trataram tão bem! Só não esticamos mais a prosa porque soubemos que quando isso acontece, o Santiago, que tem um programa de rádio na cidade, perde a hora e atrasa a programação...

Coxim sequer estava em nosso roteiro e acabou sendo um dos melhores dias que tivemos na E3A. Não conhecemos nada de "turístico" - na verdade, passamos o dia todo num posto de gasolina, mas foi um dia cheio de gente interessante, de gentilezas, de dicas. Finalmente fomos pro hotel - indicado, óbvio, pela turma do Edson, o comentário dos dois foi um só: que dia bom!

Obrigada, pessoal de Coxim!

No fim da história descobrimos que existe sim uma balsa para Porto Jofre e era possível fazer a segunda fase, mas que bom que ficamos em Coxim.

 

Pretendemos voltar para o Pantanal para conhecê-lo na cheia, pois pelas fotos e histórias que ouvimos será um outro Pantanal!

 

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